5.11.01

O texto seguinte lotou uma página do Protozine de Outubro, com tiragem de 200 exemplares distribuidos randômicamente por aí. Ah! Eu fiz um lance meio djangobroder, falando de uma porrada de coisa que rola, me atiça ou incomoda. O Zé colmédia fez umas ilustrações que depois coloco aqui! É isso!

VIDA DE FREELANCER

Alguém aqui já beijou uma fada!? A minha tinha olhos verdes, cabelo curto, sorriso infantil e um corpo quente e delicioso, seus movimentos e caretas tão graciosos que observá-la, espreguiçando-se descabelada de manhã ou espalhando areia pelo corpo à tarde, sempre resultou relaxante e maravilhoso. Eu tenho essa mania de observar silenciosamente as muchachas, raramente esqueço um rosto, o que infelizmente não acontece com os nomes, sou um desastre pra nomes ainda mais sob o álcool que confunde e desfoca.

Com Nortec na caixa fica mais fácil comprender o que é um Naco, mulambo, fulêro ou fudido. Quando o playboy da mesa ao lado nota meu penteado bizarro eu já largo o dedo médio antes que ele possa comentar com suas piranhas, a cara de cú do mané não tem preço! Essa é minha vida, enquanto o mundo explode injustamente rumo cambaleante de foda-se ligado numa sequência sem fim de boas e roubadas, abraçando o rio de janeiro e o mundo. Fotografando, gravando, perturbando e me esforçando em tocar idéias e artes no circuito.

Aquele moleque que nunca tinha tido saco ou interesse em acompanhar o cenário da música pop internacional, encontra a vida que sempre quis quando mergulha na cena lançando seu primeiro zine impresso e na web em 1996. Na mesma época rolaria o antólogico show de Chico Science no Circo Voador, Finalmente testemunhava ao vivo aquele movimento encantador que me seduzia com sua fusão de sons e estética Afrociberdélica. Uma Planta de Poder me ensinou a voar e minha vida nunca mais foi a mesma. Minha vida muda novamente recentemente, quando chuto o balde, disposto a trabalhar para mim mesmo, tocando projetos inacabados adiante e vivendo de Freelinhas.
Tem que ser cascudo eu sei, mas é a vida que eu sempre quis, e porra! Eu já sofri pra caralho! Na faculdade suportei de tudo, professores maletas e invejosos, metodologias academicas retrógadas e desorganizadas até o dia que entreguei fanzines a colegas e depois de explicar do que se tratava (porque eles eram estudantes de jornalismo que não sabiam o que era fanzine) ouvi um: "mas pra que você faz isso!?". No ano e meio que se seguiram trabalhei como Web-developer de uma Dotcom que começou fundada por três doidões numa sala, cresceu, foi comprada por um yuppie cheio de termos yankees que finalmente revende a empresa à uma mega-corporação que instaurando inúmeras metodologias e cagações de regra acaba falindo e tendo de demitir mais da metade do quadro. Nasdaq neles! Os yuppies oportunistas que enfiem seus MBAs e últimos milhões no cú! A Rede é e sempre foi dos nerds e geeks, respectivamente proletários e administradores de uma rede rebelde com gritos de sobra.

Hoje tento acordar cedo pra finalizar um texto, só para descobrir que os depoimentos dos mexicanos entrevistados ainda não chegaram, peço mais prazo ao editor, sou o terror dos editores, nos prazos e nas edições. O telefone não para de tocar. Denoite rola um show e depois drum'n'bass na bunker, fumaça mais tarde e esta menina está dançando comigo, corpo colado nos joelhos, pelvis, peito e lábios. Braços afastados, sem toque, a língua imóvil e o inevitável espeto. Cada invasão da língua era retaliada, mas sem perder o teor erótico da dança. Não sei qual era a dela, cansei de tentar compreender as mujeres ou divagar sobre a loucura, mas tenho a certeza de que estar do lado "errado" é melhor do que ser um "normal" com medo de ser diferente. No dia seguinte a ressaca é monstruosa e o telefone não para de tocar, o e-mail dos mexicanos chega, fecho o texto com o dobro dos toques pedido nas esperança de que o editor sensibilize-se e me dê mais espaço. Tento voltar pro meu mundinho de projetos em andamento quando um bonde de vizinhos aparece cheio de oferendas. O telefone toca e a voz doutro lado me convida pra uma função - Passar o feriado todo, de manhã a madruga, registrando uma sessão de grafites numa comunidade, bancando os filmes e fitas - projeto pessoal! lógico que aceitei.

Porque clickar já é mais que um vício. E adicto musical que me tornei clicko shows como rotina, e aquele momento, eXpremido entre o furor da banda e o gozo da platéia é tudo. Como é uma arte cara e complicada, o fotógrafo arma-se de manhas, lábia e contatos para conseguir os clicks, que muitas vezes acabam parando em arquivos. Mas nenhum arquivo é morto a exemplo de um registro da primeira Hip Hop Rio em 1998 na Lapa que chega as bancas em 2001 como capa da coletânea da festa. Daí quando você pensa que já tem o contexto suficiente para conseguir os clicks que quiser o destino prega uma peça com seu egocentrismo. Numa quarta chego na UERJ disposto a registrar um show gratuito do impecável Rappa, mesmo não conseguindo entrar em contato com os músicos e produtores da banda achava que tratando-se de um show gratuito não enfrentaria problemas. Chegando lá é só tumulto, as senhas que tinham sido distribuidas antecipadamente estavam esgotadas e o pessoal que ficou de fora protestava alegando que ainda havia espaço no teatro. A segurança só tumultuava mais o ambiente fazendo um funil na entrada, tentativas de comunicar-me com a produção do evento, atraves do intermédio de alguma palhaça do teatro da faculdade revelaram-se um verdadeiro show de horror. Jogo de cintura definitivamente não se aprende na faculdade, malditos universotários! Para completar a frustração horas antes eu e um amigo bedúino haviamos falhado na missão space invaders; "tá babado playboy! Tá cheio de poliça!". Pelo menos no final da história nos empapuçamos num boteco onde conheci uma simpática e amável futura colaboradora do zine.
Quem é pior!? O egoísta que jura fidelidade e exclusividade ou o desesperado que divide e distribui seu coração!? Dia desses tava numa festa com essa menina que definitvamente não era minha fada mas cujo sorriso e graça jamais podem ser subestimados. No passado esta teria sido uma regra, um recurso estético unanime, uma musa platônica, mas não só por tesão ou atração é que observá-la sempre transpereceu um estilo de vida admirável e compatível. Vacilei ao levar o fanatismo ao extremo, queimando o filme e ficando a ver navios. Nestas ondas, cheguei a brigar sério com um par de meninas que realmente me amavam ao comentar a admiração com furor demais. Papo de pirado, desesperado e apaixonado.

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